caópolis.


Ser e não ser, eis a resposta
12/09/2010, 10:16
Filed under: Poemas | Tags:

Mentir é essencial para sobreviver à vida
Embora ela deixe de ser vida quando se mente
Viver torna-se uma experiência extracorpórea

Lavo minhas mãos
Do sangue do qual estão encharcadas
Não é de minha responsabilidade
Nada do que acabei de fazer

Não sei por que estou fazendo isto
Não sei por que não fiz isto antes

Porque agora
Um delicioso caos
Está infestando minha realidade
Prédios de vapor são só o que resta
E uma moeda

Bem e mal
Eis a moeda

Lanço-a e lanço-a
Por não saber qual escolher
Viver torna-se uma experiência aleatória

Eis-me apunhalando quem mais amo
Eis-me beijando os pés de quem odeio
Eis-me mentindo para mim mesmo
E acreditando

E minhas mentiras tornam-se verdades
E minhas verdades sempre foram mentiras
Viver torna-se uma experiência contraditória

E também o é minha confissão
Estou mentindo verdades
Não acredite em mim
Não sou mais eu mesmo
Sou eu mesmo enfim

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Tecnologia Irrelevante
18/09/2009, 10:37
Filed under: Textos | Tags: , , ,

Se no universo de fato houver seres com inteligência superior à nossa, eles provavelmente não têm tecnologia para entrar em contato conosco. Afinal, se eles forem realmente inteligentes, nunca matam os da sua própria espécie, de onde se conclui que nunca guerreiam entre si, o que por sua vez implica em um grande atraso na tecnologia, já que guerras são uma das maiores motivações para desenvolvimento tecnológico. Não só guerras comuns, mas também, e principalmente, as “guerras frias”, que eles provavelmente também nunca tiveram, e conseqüentemente nunca sentiram o impulso egocêntrico de “conquistar o espaço”. Além de que, se eles forem inteligentes de verdade, estão mais preocupados com a saúde e a felicidade de todos da espécie do que com supercomputadores.

Uma raça superior, sem dúvida. Mas, se um dia nossa ânsia ridícula de explorar o infinito do universo nos levar a encontrá-los, dominar-los-emos, talvez até os escravizemos, e além de tudo alegaremos que o fazemos por serem de uma raça inferior. “Não possuem tecnologia relevante”, diremos, “e são feios”, pensaremos. E eles então seriam transformados em mais escravos para nos ajudar em nossa nobilíssima busca por outros planetas, até que um dia enfim encontraríamos um que abrigaria seres com tecnologia superior e inteligência, portanto, inferior, que dizimariam nossa espécie e livrariam o universo de tal praga. “Não possuem tecnologia relevante”, diriam, “e são feios”.



Rito de Passagem
05/09/2009, 16:44
Filed under: Textos

Sou um homem agora, mas não porque fiz 18 anos.

Sou um homem por ter enfim aprendido a não expressar meus sentimentos a ponto de já nem mais saber como expressá-los.

Sou um homem por não ter tempo para me entreter como quero, apenas diversão rápida, sem envolvimento, sem engrandecimento pessoal, apenas lixo.

Sou um homem por ter sido engolido pela rotina, por não quebrar mais meus despertadores.

Sou um homem por não dar mais muita importância a amigos de verdade, basta alguém que aguente ouvir uma palavra ou outra das que posso dizer sem revelar como me sinto por dentro (não quero que me achem um maricas).

Sou um homem por estar sem paciência para fazer as escolhas certas.

Sou um homem por estar começando a desprezar as mulheres – não que elas mereçam esse desprezo, apenas ando sem tempo para donzelas em torres guardadas por dragões.

Sou um homem por desprezar os outros homens, e neste caso não posso dizer que não merecem.

Sou um homem por estar pensando apenas em dinheiro, trabalho e sucesso.

Sou um homem por estar deixando de ser humano.



Meia-Noite no Circo
26/07/2009, 15:56
Filed under: Poemas

Minha primeira série de poemas desde Caópolis. Esta de agora, contudo, é composta por poemas independentes e sem ordem cronológica (sequer sei se já a terminei… é uma série que pode ser sempre expandida), e usa de ambientação e imagens circenses, nada de cidades e tecnologia.

Comecei a escrever os poemas como algo pessoal, sem perspectiva de serem postados, mas depois percebi que falam de sentimentos e situações comuns a quase toda pessoa de minha faixa etária. O primeiro que escrevi desta série foi O Palhaço, nome que surgiu depois de eu haver começado a escrever O Malabarista (antes estava sem título) e, com isso, ter tido a idéia de fazer uma série de poemas. Esses dois que citei eu já postei por aqui, e acho que são os melhores da série até agora, junto com O Mágico. Enfim, vamos aos poemas:

O Palhaço

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O Malabarista

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O Comedor de Fogo

Vejam, eu engulo fogo!
Venham todas as chamas do mundo!
Eu as engolirei
Também, contudo, as sei cuspir
Melhor saírem do caminho quando acontecer

Devo também dizer
Que o fogo não queima a minha pele
Não mais
Não depois de minha ida ao Inferno

Mas queima minhas memórias
Minha mente… incandescente
Acho que vou cuspir fogo agora
Todos vocês, saiam da frente!

Oh, não! O circo está em chamas!
Oh, sim! Sou um dragão agora!
Posso voar

Delírio premortem
Estou queimando como todos os outros
Até porque nunca estive no Inferno de verdade
(Até agora)

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O Domador

Estou na jaula com a criatura
Domo ela há anos
Mas ainda não perdi o medo
Como eu poderia?
Nunca a conheci direito
(E o desconhecido é sempre assustador)
Apenas me dizem para chicoteá-la
E garantir que fique mansa
E é o que faço

Mas seus grunhidos sinistros…
Suas garras gigantescas…
Seus dentes afiados
Rindo e sorrindo de minhas chicotadas
Brilhando na escuridão
Únicas coisas visíveis em sua forma negra
Ela pode me estraçalhar assim que quiser
Assim que eu quiser…
É minha mente que a segura, não meu chicote
Mas apenas sei segurar meu chicote, não minha mente

Levanto um braço, ela levanta
Inclino a cabeça, ela inclina
É um espelho!
Saio correndo

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O Mágico

A quem eu quero enganar?
(Ora, a todos, é minha profissão!)

Agora estou aqui
Agora não estou mais
Ops! Cadê minha perna?

Enfio uma espada na caixa
Depois outra espada
Ops! De onde veio esse sangue?

Tiro a cartola da cabeça
Enfio a mão na cartola
Ai! Quem pôs este caranguejo?

Vou tentar algo mais seguro…

Esta é a carta que você escolheu?
Não?
Mas veja bem, é parecida…

A quem eu quero enganar?
A quem eu preciso enganar?
A mim mesmo?
Deve ser
Pois foi só o que fiz até agora

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Se eu vier a escrever mais poemas desta série, posto separadamente e adiciono o link a esta lista.



Lavagem Cerebral
17/07/2009, 21:32
Filed under: Poemas | Tags: ,

Uma mentira dita cem vezes torna-se…

Valor moral
Estigma
Religião
Dogma
Aforismo
Doutrina
Ensinamento

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Brinquei com a célebre frase de Josef Goebbels, Ministro de Propaganda de Hitler.



Retroalimentação
16/07/2009, 12:58
Filed under: Poemas | Tags: ,

Dizem que a moda muda
M… moda nenhuma!
Muda é essa gente
Que só abre a boca
Para engolir m… moda
E vomitar essa m… moda de volta
Para que outros engulam

Revoluções, raras verdadeiras revoluções
Acontecem lentamente
Pois quem está um passo à frente, chamam visionário
Mas quem já está a um quilômetro, chamam demente

Perdoem-lhes
A distância demasiada é problemática
Ainda mais para essa gente míope
Até faz o Sol parecer menor que a Terra…



O Malabarista
13/07/2009, 16:38
Filed under: Poemas | Tags: ,

Coisas demais
Ao mesmo tempo

Meu crânio, meu coração
Meu relógio de bolso, meus olhos
O útero de minha mãe, minha próstata
Minha máscara feliz, minha máscara triste
Nada pode cair

É melhor me aplaudirem agora
Não sei se o show vai acabar bem

Ora em minha mão, ora no ar
Ora em minha mão, ora no ar
Ora no chão… Droga!

Ei, por que eu estava preocupado?
Não há vaias!
(A verdade é que não há ninguém)

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Mais um da série Meia-Noite no Circo.